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Régia Oliveira, a fisioterapeuta do Nacional

01/09/2014 13:05h | Escrito por Ennas Barreto

Ela foi a primeira mulher a atuar como fisioterapeuta no futebol amazonense e garante que nunca foi desrespeitada no elenco nacionalino

Formada na primeira turma de fisioterapia no Estado do Amazonas, no ano de 2004, pela Universidade Nilton Lins, a Doutora Régia Maria de Oliveira Coelho, 47, revela que atuar como fisioterapeuta do Nacional Futebol Clube é uma realização pessoal e garante que apesar de ter enfrentado muitas desconfianças, nunca sofreu com assédio por ser uma mulher trabalhando num ambiente considerado masculino.

A fisioterapeuta conta que está no futebol desde 2004, mas que cuida do elenco do Leão há cinco anos e nunca foi desrespeitada.   “É uma grande honra fazer parte deste clube, poder colaborar com minha profissão para a evolução do Nacional. Trabalho de coração, porque tenho vontade de vencer junto com o clube. Estar num ambiente onde sou respeitada, me faz acreditar que a valorização de um profissional depende do seu posicionamento e do caráter das pessoas que o rodeiam”.   Ainda de acordo com Dra. Régia, a paixão pelo futebol foi essencial para o ingresso no esporte. “Sou apaixonada por futebol e sempre tive consciência que isso é essencial para crescer na profissão”.   O centenário Nacional oferece aos seus atletas um departamento médico estruturado o que é motivo de elogio por parte da fisioterapeuta. “O Nacional é um clube que tem um departamento médico profissional em pleno funcionamento. O setor de fisioterapia é valorizado, o que não é comum em outros clubes. É necessário ter consciência que a fisioterapia não é apenas a reabilitação ou recuperação, mas sim prevenção. Começamos fazer isso há dois anos aqui, no Nacional, e já temos uma academia no CT e o resultado foram as poucas lesões no ano de 2014”, afirma.   Mulher no esporte   A busca por igualdade entre os sexos é constante em todos os setores da sociedade. A inserção da mulher no mercado de trabalho é uma realidade, principalmente em algumas profissões consideradas masculinas, como, por exemplo, o futebol. A desconfiança e o preconceito são quase inevitáveis, porém, com postura, as mulheres têm mostrado no dia a dia sua capacidade. A exemplo disso, está Dra. Régia Oliveira, a fisioterapeuta do Nacional, conta como é trabalhar num ambiente masculino, onde ela é a única mulher.    “Sou apaixonada por futebol, troco qualquer programa por um jogo e, por isso, enfrentei muitos obstáculos, que começaram ainda em casa, quando era adolescente. Meus pais não me deixavam assistir aos jogos, por acreditarem que não era coisa para mulher. Estou há dez anos no futebol, como fisioterapeuta, nunca tive desentendimento com nenhum atleta ou comissão técnica. Sempre me coloquei como profissional. Nas viagens com o clube, sou respeitada e recebo o tratamento que dou, quando eles precisam sou mãe, sou amiga, sou irmã. Fico comovida quando me chamam de ‘mãezona’”, relata emocionada.   A fisioterapeuta relembra o único fato em que ouviu comentários maldosos sobre sua posição. “Lembro de uma vez, em Belém/PA, quando entrei em campo para realizar um atendimento, ouvi da arquibancada uns comentários: ‘Olha é machuda, a sapatão’, mas não me abati, sabia do meu potencial, sabia que era estranho para aquelas pessoas ver uma única mulher entre tantos homens”, conclui.   Família   Divorciada, e mãe de dois filhos. A caçula, Shaely de Oliveira, 20, é acadêmica de direito e segundo a mãe, uma apaixonada por futebol. “A Shaely é louca pelo Nacional e mostra isso em tudo. Minha filha é meu orgulho. É estudiosa, em breve será advogada, e uma praticante de esporte. Ela é nadadora, já ganhou várias medalhas e recentemente, bateu dois índices, 50m e 100m peito e ainda vai representar nosso Estado, em Aracajú/SE”.   Já, o filho, Gilskley de Oliveira, 24, é funcionário público e ao contrário da mãe e da irmã, não ‘curte’ futebol. “Meu filho é tranquilo, não gosta de futebol, mas tem um diferencial, me dá todo o apoio que preciso, acredita no meu potencial e no da irmã. Isso é essencial num homem”, fala lisonjeada a mãe.   Carreira   Ela diz que iniciou a carreira como técnica em enfermagem, mas não demorou para chegar à fisioterapia.   “Comecei minha carreira como técnica em enfermagem e em 2004 prestei o vestibular para fisioterapia na Nilton Lins. No decorrer do curso, muitas pessoas ficaram pelo caminho, desistiram. Meu professor dizia que de quatro turmas com 50 alunos cada, se formaria uma turma, mas eu tinha convicção que seria o 49º aluno. Tenho um casal de filhos e na época eram pequenos e mesmo assim consegui me formar. Meu primeiro trabalho como fisioterapeuta foi no Pronto Socorro de Fratura. Fiz minha pós-graduação em cardiorrespiratória, depois em traumato-ortopedia com ênfase em esporte, me especializei em reabilitação de joelho, hoje o protocolo acelerado de joelho. Tudo isso, me deu o respaldo para atuar no esporte sem nenhum problema com assédio”.   O primeiro clube a atuar foi o São Raimundo, em 2005 enquanto estava na série B, ficou até 2007.  Em 2008, continuou no futebol, mas sem nenhum contrato com clube, atuava quando solicitada.   Mas foi 2009 que a sua história começou no Nacional, desde então já são cinco anos dedicados ao Leão que, segundo ela, esse relacionamento vai longe. “Quero ficar no Nacional, se for possível”, ressalta.   Além do esporte, Dra. Régia trabalha na Fundação Hospitalar de Hematologia e Hemoterapia do Amazonas (Hemoam) e também atende particular, um de seus clientes é o prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto.   Questionada sobre a vida profissional intensa, os horários, as possibilidades de optar e o conselho que daria às mulheres que pretendem seguir essa área, ela não hesita. “Não vivo do futebol, financeiramente, mas trabalho por paixão. No início foi difícil, por ser a pioneira, vencer a desconfiança foi complicado, mas quando a gente faz o que gosta não há obstáculos. Para quem pretende trabalhar no futebol, não há segredo: estude, se especialize, por sermos mulheres precisamos mostrar aos homens que entendemos do assunto, a cobrança é maior; respeite os outros e serás respeitada; seja profissional e ame sua profissão”, orienta.   Expectativas   A fisioterapeuta não esconde a paixão pelo Mais Querido e o desejo de continuar no elenco, ela fala empolgada sobre as expectativas para o próximo ano.   “Não tenho a menor dúvida que 2015 será o ano do Nacional. Falo isso, por ter consciência de todos os obstáculos que enfrentamos em 2014. Fomos campeões apesar da estarmos desacreditados pela maioria, mas chegamos onde chegamos e com muita determinação. Lembro as vésperas do jogo, na nossa reunião e eu falei: gente, dentro do campo é você e a bola, não há um campeão. São 90 minutos que determinam, então tem jogo. Então eu acredito, olhei para o Leonardo e disse: eu acredito!’. Eu tinha certeza, desde quando saímos com aquela derrota, no primeiro jogo. E é com essa determinação que vamos encarar todos os campeonatos em 2015. A diretoria vai montar uma equipe boa. Terminamos o campeonato com um elenco muito bom, comissão técnica muito boa, tinha interação com o departamento médico e isso é determinante. O Nacional acertou numa coisa, a valorização do elenco. Vamos ganhar, vamos subir e vamos mais longe”, finaliza.  

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